Friday, November 24, 2006

Palavras que me irritam_1


Governabilidade - Por que não dizer governo? Está em moda dizer que é preciso garantir a governabilidade do país.
Ora, até bem pouco tempo, essa palavra não constava do dicionário.
Governo vem de governar: exercer governo de; imperar em; dirigir; administrar, conforme nos informa o Aurélio. Portanto, por que não dizer "é preciso garantir o governo do país", ou seja, "garantir a administração, a direção, a condução do país"?
Senão, vejamos a seguinte situação:
Um carro trafega por uma estrada em dia de chuva e, ao passar em um buraco na pista, a barra de direção quebra-se. Pergunto: o veículo fica desgovernado ou desgovernabilizado?

33 comments:

Anonymous said...

Outra bem nessa linha é o palavrão "flexibilização".
RSRSRS Brasil, que país é esse mesmo?????
Leo

Guilherme said...

Eu ouvi uma esses dias, bem parecida... mas acho que é até pior... saudabilidade!!!

Beijos,
Gui

Ana Scatena said...

Flexibilização...disponibilização...
Ai*, como dói*!
Agora, saudabilidade é o quê?
Condição de ser saudável ou de ter saudade???? Guilherme, que lugares você anda freqüentando, hein? Que palavra feia! :-)

Guilherme said...

Pois é!! Essa foi das piores que eu já ouvi... e foi de uma pessoa "instruída", heheheh Mas, no contexto, era a condição de ser saudável mesmo. Agora, acho que pode ser de ter saudade também, fica a gosto do freguês...

Bjos

Ana Lucia Munhos said...

SAUDABILIDADE!!!!!!!!!!!
Fiquei surpresa ontem ao deparar-me com esta palavra no restaurante da empresa em que trabalho. A tal SAUDABILIDADE estava estampada em um cartaz muito bonito e grande na entrada principal. Curiosa, pesquisei e constatei que estava certa : não existe. É mais uma que somos obrigados a ouvir e ler diariamente, adaptada sabe-se lá de onde. O que me irrita é que agora serão mais 4800 pessoas que, mesmo que saibam ser incorreto o uso dessa palavra, a terão na memória. Quantos desses sairão de lá com a sensação de que é atual e "fashion"?

Ana Scatena said...

Pois é, Xará Lúcia (:-)
Saudabilidade na porta do restaurante dá até indigestão, não?
Beijos!
Xará.

Anonymous said...

O pior é que eu vou assistir a uma palestra amanhã que tem como título: Ingredientes para agregar saudabilidade a alimentos.

Estava até procurando na internet algo sobre saudabilidade para confirmar se essa palavra realmente existe.
Tem mesmo que ser muito corajoso para apresentar uma palestra com esse título em plena UNICAMP!!
Tem dó!
O pior é que muitas pessoas vão achar normal e vão passar a usar essa palavra.

Ana Scatena said...

Caro anônimo,
E no título da palestra ainda tem um "agregar", que virou uma praga. Hoje em dia ninguém acrescenta mais nada, só agrega. Até em receita culinária na TV as pessoas dizem: "Agora vou agregar o molho no macarrão"!!!
Fiquei pensando que seria tão mais comunicativo dizer, no caso do título da palestra:
"Ingredientes para aumentar as qualidades nutritivas dos alimentos". Mas aí, todo mundo ia entender, né?
Obrigada pela mensagem e depois me conte como foi a palestra. espero que não sirva para aumentar sua irritaBILIDADE...:-)

Bjs!

escriba77 said...

Ana, você está sentada? Tome esta daqui: "acessibilização". Pegou no meu fígado outro dia. Ou na "região hepática", como diria o Luciano do Valle nas lutas do Maguila.

Essa "obra" está exposta numa escola da Av. Indianópolis, em São Paulo. Olha só o tamanho da sujeira:

"Governo do Estado de São Paulo. Acessibilização da Escola Alberto Levy." E agora, governador José Serra? Desse jeito, vão achar que é coisa do Lulla!

escriba77 said...

Também tem a "arte-educação" e o "uso-dependente". Usaram um processo de formação de palavras que não existe em português! Só para macaquear os gringos! Por essa regra, não diríamos engenheiro civil, mas sim civil-engenheiro!!! Socorro, Stanislaw Ponte Preta!!! O Febeapá se instaurou de vez no Brasil!

abs

Silvio

Ana Scatena said...

Oi, escriba!
Pois você tocou numa palavra que me dói no FIGO, como diria o citado Maguila!
Por que não dizer "adaptação de acessos" ou "obra para facilitação de acesso". Sinceramente, acho que as pessoas que saem falando assim querem reinventar a roda (já que estamos falando em acesso...).
O duro mesmo vai ser o dia que o garotinho chegar em cada com a corrente da bicicleta quebrada e avisar: pai, minha bici tá com problema de rodabilidade!
Ai não vai mais ter remédio.
A vaca estará com um sério problema de brejabilidade!
Um abraço e venha descarregar a irritação aqui sempre que quiser.

escriba77 said...

Opa, eu escrevi também sobre as palavras em portinglês, como uso-dependente e arte-educador!!! Não chegou aí? Estudei bastante inglês, mas não foi para macaquear os súditos do Obamão, muito menos para entortar a língua pátria. Haja Deus!!! Se essa gente soubesse um mínimo do processo de formação de palavras em português, não perpetraria essas "obras"... Evoé, Ana!

Silvio Atanes
escriba digital & repórter de papel

escriba77 said...

Mas tem gente fazendo coisas muito boas, como tradução de filmes. Veja só esta pérola: O filme "Bater ou Correr", com Jackie Chan, chama-se no original "Shanghai Noon", que remete imediatamente a "High Noon", clássico do faroeste norte-americano de 1952. O legal é que, no Brasil, esse filme foi parodiado em 1954 como "Matar ou Correr", com o impagável Oscarito. Viva o trocadilho!!! Viva o tradutor, que pegou carona na versão do Oscarito!

Ana Scatena said...

Oi, Sílvio,

Que delícia ler seus posts!
Divertidos e instrutivos, como toda a vida devia ser.
Nossa, esse tradutor arrasou, não?
Pena que poucos podem apreciar o trabalho que o coitado teve. Depois querem que todos os tradutores nivelem o valor da lauda por baixo...
O outro comentário não chegou... :-(
Fica me devendo...

escriba77 said...

Ana, chegou, sim! É o das 6h57! Vai ver estava na Divisão de Censura e Diversões Públicas, o temido e nada saudoso DCDP!

Ah, já mandei cartas para os coleguinhas de imprensa. Tem gente que acha que "impagável" pode ser usado com o sentido de "que não tem valor", "inestimável". Essa acepção até está registrada no pai-dos-burros (ou será agora paidosburros??).

Porém, na prática, "impagável" é sinônimo, desde sempre, de "hilariante", ou até mesmo "infame". O Costinha, por exemplo. Fora o (a?) tsunami de palavrões, ele era um comediante impagável, sim senhor!

Outra expressão frequentemente (adeus, trema!) entortada é "figurinha carimbada". Isso significa "coisa rara ou difícil de ser achada". E não arroz-de-festa (arrozdefesta??), como amam dizer nossos colunistas!

Este humilde escriba mandou essa da figurinha e outras colaborações ao dicionário Caudas Aulete Digital. Você, que é tradutora, procure lá, pls, os verbetes "limerência" e "limerente". Foi uma forma de homenagear minha amiga -- e mecenas! -- Dorothy Tennov. R.I.P.

XXX

Sylvan "Woody" Woods
digital scribe & paper scribe

PS: Se quiser, posso mandar um trecho de um livro da Dra. Tennov para você.

Lia said...

Hoje ouvi pela primeira vez "saudabilidade"e vim procurar na Internet se havia ou não essa palavra. O infeliz que falou ainda disse que saudabilidade é o superlativo de saudável...ui...

Barbara said...

Saudabilidade é coisa de nutricionista. Hoje recebi uma propaganda de um curso com esta palavra. Deu um nó nos meus neurônios! Imagine se vou pagar por um curso de alguém que escreve assim!

Ana Scatena said...

Adorei seu texto! Por alguma razão, não recebi notificação da sua postagem. Adorei! Volte sempre. E quero uma cópia do capítulo, sim! Obrigada!

Ana Scatena said...

Hahahaha Eu também não me inscreveria! Volte sempre, Barbara. Beijo!

Silvio Atanes said...

Olá, Ana! Ói nóis aqui traveis! Se preparem, porque, logo mais, "vamos estar enviando" mais uma enorme lista de palavras que irritam! Tenho um monte de coisas que publiquei recentemente no Facebook. Obrigado por refrescar minha memória, eu nem me lembrava mais destes posts. Um grande abraço.

Silvio Atanes said...

Oba! Já mandei um longo e-mail para você, sobre o livro de Dorothy Tennov. E ainda estou devendo o texto sobre as palavras e expressões escabrosas. Um abraço. Silvio.

Ana Scatena said...

Oi, Silvio!
Aguardarei ansiosa!
Grande abraço!

Silvio Atanes said...

Ueba! Você pediu! Então, é por sua conta e risco.

Silvio Atanes said...

Olha que eu posto mesmo, hein?

Silvio Atanes said...

Lá vai! Tcharã!

Silvio Atanes said...

Sem mais delongas nem chorumelas...

Silvio Atanes said...

O idioma gourmetizado – e idiotizado
Parte 1

Palavras hediondas, modismos imbecis e verbos pestilentos, que deveriam ser banidos do idioma. Tudo, é claro, segundo o ranzinza redator. E com pena de prisão inafiançável para o usuário:

1. Empoderamento (Troféu Betty Friedan)
2. Oportunizar (Troféu Inoportuno)
3. Problematizar (Troféu Mala)
4. Escrever “bowl”, em vez de tigela. (Troféu Clóvis Bornay)
5. Escrever “ramequim/ramequin/ramekin”, em vez de tigela. (Troféu Alfabetização Solidária)
6. Escrever “espresso” em vez de (café) expresso. (Troféu Mobral)

7. Acessibilizar. Tente conjugar na segunda do plural, no futuro do subjuntivo. Achou pouco? Tasque uma mesóclise. Ainda não pescou? Mande um “futuro do gerúndio”: vamos estar acessibilizando! (Troféu Muralha da China)

8. Dizer “gift” em vez de brinde. (Troféu Eguinha Pocotó)
9. Dizer “gelato” em vez de sorvete. (Troféu Pernacchia per Tutti)

10. Food trucks, que nada mais são que a gourmetização dos bons e velhos trailers de lanches. Ou, como ainda se diz no interior, os lanchinhos. No finzinho dos anos 90, ficaram motorizados, com as simpaticíssimas microvans dos dogueiros (taí uma palavra legal!). (Troféu Indigestão)

Em São Paulo, havia um camarada com uma minúscula Towner na Rua Flórida, esquina com Luís Carlos Berrini, que vendia um cachorro-quente disputadíssimo na hora do almoço. Era toda cheia dos badulaques e borogodós, com compartimentos para salsichas, molhos, maioneses, picles e acepipes mil. Dava vontade de levar aquele carrinho de brinquedo pra casa!

Em São José do Rio Preto, SP, cidade sem frescuras, onde reinam os lanchinhos do Gordo, do japonês do Mek Japa, Super Dog, Turbo Dog etc. O meu predileto é o Jet Lanches, na esquina da Marechal Deodoro com Voluntários de São Paulo, no Centro. O acampamento é montado à noite, em frente ao Fórum, onde ocupa parte da marquise do prédio de escritórios conhecido como Marmitão, por causa do formato redondo. E com uma Nossa Senhora lá no alto. Pouca gente sabe disso! No Jet, tem até TV para ver os Gols do Fantástico, além de mesas e cadeiras na calçada. Fica a duas quadras de onde eu morava.

Uepa! Vejo agora que a cidade já foi invadida pelos horrendos food trucks! É verdade, Ricardo Brandau? Socorro, Daniela Baptista! Edson di Alves, vamos liderar a Revolta do Pão de Queijo? O Levante dos Lanchinhos?

11. Dimerizar/dimerizado/dimerizável. Parece que os comedores de alfafa por convicção gostam tanto de um “dimmer” (diga dímer, não dáimer), que inventaram um verbo. A engenhoca é apenas o velho é prosaico regulador de iluminação, conhecido há décadas no Brasil. É aquele botão, deslizante ou rodinha, que trabalha em conjunto com o interruptor de lâmpadas e serve para regular a intensidade da luz. Mas aí entrou em cena a turma da gourmetização, e tudo ficou mais complicado. Simplicidade não é o forte desse pessoal, os avassaladores vassalos. Como diria minha avó, “quanto mais abaixa, mais aparece a bunda”!

Silvio Atanes said...

O idioma gourmetizado – e idiotizado
Parte 2

12. Gourmetização. Virou sinônimo de qualquer coisa artificialmente chique. Espalhada por falantes imbecis e jornalistas idem. Quem ousar pronunciar tal blasfêmia deve se prevenir contra cólicas, náuseas e vômitos com uma boa dose de Buscopan ou Plasil na veia.
13. Dizer “mobile” (môubol ou moubáil, conforme a preferência do ás no idioma) em vez de móvel. (Troféu Capitão Gay).
14. Gestacionar. Acho que o autor de tamanha asneira queria dizer gerenciar ou gerir. Que falta faz um bom dicionário! “Caminho Suave” nele! (Troféu Embromation)
15. Usar “topping” em vez de cobertura. (Troféu Vassalos de Tio Sam)
16. Excesso de redundâncias, como “lançamento em primeira mão”. Em português ou em salada mista de analfabetismo bilíngue, caso do célebre “um plus a mais”.
17. Exemplificação.
18. Dizer “players” em vez de atores, especialmente na cobertura econômica.
19. Usar “casting” (seleção de elenco) no lugar de “cast” (elenco), palavra conhecida há décadas no Brasil, desde os tempos das radionovelas.
20. Dizer “literalização” em vez materialização. É uma burrice literal.
21. Mate em vez de fosco. E que fica ainda pior com dois tês: “matte”. Os vassalos de Tio Sam que fazem isso se esquecem de que, embora correto e registrado em dicionário com essa acepção, no Brasil mate é e sempre será sinônimo de chá. Como comprova a rede Rei do Mate. Tomo o meu sempre com guaraná, na matriz da São João. As franquias de shopping vendem o mate muito aguado e com xarope de guaraná meia-boca, que mais parece um Q-Suco batizado. De qualquer forma, eu sempre preferi groselha – e da Milani.
22. Escrever “massivo” em vez de “maciço”. Outra mania dos analfabetos em dois idiomas. Embora seja abonado pelos dicionários modernos e incluído no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o adjetivo só debutou no Brasil por causa de uma tradução “ao pé da pata”. Algum leitor preguiçoso, com certeza um jornalista, leu às pressas “massive” em um texto em inglês e não teve dúvida: obrou um “massivo” em português. “Estava ali tão bonitinho, piscando pra mim...”, confessa o pangaré.
23. “Off” no lugar de desconto.
24. “Sale” no lugar de liquidação. Que saudade do Mappin!
25. Usar o eufemismo desonesto “descontinuar” para mascarar o correto: deixar de ser produzido. Um produto não é “descontinuado”, mas, sim, deixa de ser produzido, tem a produção interrompida etc. Simples assim, como falamos desde sempre no dia a dia.
26. Dizer “gas station” em vez do prosaico posto de gasolina ou posto de combustível. Ainda não vi tradução perneta como “estação de gás”. Oremos...
27. Dizer “delivery” no lugar de “entrega”, sempre em domicílio, e não “a”! “Pizza delivery”, para mim, é sinônimo de pizza estragada!
28. Dizer “gap” no lugar de diferença ou intervalo. Acho isso uma tremenda frescura!
29. Dizer “realizar” em vez de perceber, constatar, conceber, sacar etc. Outra legítima tradução ao pé da pata. É um falso cognato, ou false friend, dos bons.
30. Dizer “paralímpico” e “paralimpíada” – sem correspondentes na norma culta –, em vez dos corretos paraolímpico e paraolimpíada. O pior é ser uma burrice paga, feita apenas para agradar aos patrocinadores dos jogos, babar ovo dos gringos. É uma vergonha que merece medalha olímpica!
31. Dizer “shot”, no lugar de dose de bebida. Quem diz isso should be shot!

Também merece moção de repúdio a mania que os coleguinhas, especialmente os de TV, têm de trocar “nenhum” por “qualquer” em frases negativas. Nas matérias sobre a Operação Lava-Jato, por exemplo, há uma avalanche desse erro crasso. A frase-clichê é: “A defesa de XXXX afirmou que não há qualquer (sic) irregularidade.” O correto, como aprendemos na escola, é: “Não há NENHUMA irregularidade.” Talvez os analfabetos em dois idiomas achem que, a exemplo do inglês, o “não” anule o “nenhum”, ou que uma frase não comporte duas negativas.

E tenho dito!

Ana Scatena said...

Maravilha seus posts, Silvio. O Blogger me mandou uma série de mensagens super antigas, todas de uma vez hoje. Não sei o que foi. Deve ter havido algum problema na plataforma.

Agnes Zuliani said...

Robertinho Camargo também fala muito sobre isso. Agora as coisas conversam. "Esta poltrona, conversa com o tom do sofá. "��

Silvio Atanes said...

Oi, Ana. Obrigado, disponha! Essa lista não acaba nunca! Um abraço.

Ana Scatena said...

HAhahaha...Boa, Agnes. Verdade!

Ana Scatena said...

Silvio, adorei! Volte sempre. É um trabalho sem fim.