Wednesday, May 26, 2010

Quando foi que laquê virou hair spray?

Conforme o tempo passa, por várias razões, algumas palavras deixam de ser usadas e são esquecidas. Com as gírias é muito comum isso acontecer. O que hoje é brega, na década de 70 era boko moko, gíria inventada para anunciar uma marca de refrigerante. Quem não tomava a bebida gasosa era boko moko, não tinha bom gosto, estava por fora, ou out, como se diz hoje em português (???!!!?)


Mas há palavras que não são gíria e mesmo assim desaparecem ou são substituídas por outras.
Por exemplo, quem aí ainda compra creme rinse?  Novidade mercadológica na década de 70 (pelo menos lá em casa, onde toda novidade chegava com anos de atraso), o creme rinse servia para deixar os cabelos mais desembaraçados depois da lavagem. Era um creme de enxágue (que falta ainda sinto de colocar o trema nos grupos gue, gui, que , qui em que o u é pronunciado...Fica parecendo que usei xampu mas ficou faltando creme rinse). Rinse em inglês é enxaguar. Claro que estou falando do atual condicionador. Quando creme rinse virou condicionador eu não sei. Mas é uma mudança boa: de duas palavras para uma e, caso raro no Brasil, uma palavra em inglês substituída por outra em português. Verdadeiro milagre.
Quem cresceu ouvindo dizer crem rinse corre o risco de deixar o termo escapar por aí e ter de arcar com as consequências (ai, que saudade do trema!). Uma delas é não ser compreendido na farmácia e a outra, ser tachado de velho!

Eu mesma passei por uma saia justa um dia em que entrei em uma loja para comprar condicionador e na minha memória só vinha creme rinse! Entre dar pista da minha idade e passar por maluca, me refugiei na segunda opção. Comecei a rodopiar pela loja apontando e balbuciando: Querooooo, queroooo, ééééé, querooo... Até que achei o vidro e disse: Aquilo ali. A vendedora me olhou meio espantada. Acho que dei uma de lelé (outra palavra em desuso?). Mas não entreguei a idade! :-)

Uma outra situação foi quando precisei comprar meias e pedi à vendedora um par de meias fumê.  A vendedora me perguntou: "O quê?". Repeti mais alto: Fumê!, achando que ela não tinha me ouvido. Ela me respondeu: "Não conheço que meia é essa". Eu, muito surpresa, pensei: isso é que dá não ensinarem mais francês na escola. Fumê vem de fumée, esfumaçado. Até aquele dia eu achava que a cor entre preto e cinza se chamava fumê, como eu havia dito toda a minha vida. Expliquei para a atendente que se tratava de uma cor e pedi para ela me mostrar quais havia na loja. Então, de novo, usei o recurso de apontar. Ela me disse, aliviada: "Ah, tabaco!"

Mais um ponto para a língua portuguesa, senhoras e senhores! E no mundo da moda, em que o caminho costuma ser o contrário: tiram a palavra em português e colocam uma em inglês geralmente, para ficar mais chique... Nesse caso, saiu a palavra de origem francesa e entrou uma palavra já constante do dicionário português. O que não é garantia de que seja 100% de origem nacional! Afinal, que palavras nossas são genuinamente portuguesas, que não tenham vindo do latim vulgar, do grego, do árabe (de onde vem tabaco, aliás...). Hein? Hein? Hein?


Agora, se quiser tomar uma vaia mesmo, vá ao cabeleireiro (Ou é boko moko chamar cabeleireiro de cabeleireiro? Preciso dizer hair stylist?) e peça para ele passar laquê no seu penteado...
Pior que isso, só sair  para passear de bobs no cabelo que, pelo que fiquei sabendo, acabam de sair do asilo dos objetos de beleza para as passarelas...

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